quinta-feira, 10 de novembro de 2016

QUINTA DE POESIA







Procuram José Gonçalves.

Homem simples, brasileiro,
vivia em Montevidéu.
Vendia flores na esquina
da avenida San Jose.

Além do nome, mais nada.

Medroso bicho pequeno
camuflado no prosaico,
não alcançava os negócios,
que ao redor se fechavam
desdobrando-se  em camadas,
gravatas, lagos de gelo, uísques e amendoim.

Nada sabia do inferno.

Por que foi inesperado,
homem levando um outro
homem que não se ?

 Talvez tivesse uma dor que um dia desesperou.

Ou seu olhar incendiado
de  impossíveis passados
tivesse visto uma Rosa
a qual ninguém mais não viu.

E, nessa Rosa, outra rosa,
algum chamego, um requebro,
fez dele menino novo,
o sexo arregaçado
as mãos nos bolsos dobradas,
guardando fundo um segredo,
como quem guarda um real

Procuram José Gonçalves,
meninohomem secreto,
que ao badalar de uma hora ,
pisoteou as margaridas,
dobrou, agudo, uma esquina,
virou nota de jornal.                                                                        

                                                     
Ana Mariano




 Foto: James Burton





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